AveSui 2017
20-Mar-2017 17:01 - Atualizado em 20/03/2017 17:12
Entrevista

Mestre em Política Internacional espera que denúncia sobre setor de carne traga modernização na estrutura do DIPOA

De Bruxelas, Jogi Humberto Oshiai falou com os Portais Avicultura e Suinocultura Industrial sobre a visão do mercado interno diante das operação Carne Fraca e espera melhoras consideráveis no processo de inspeção

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Arquivo Pessoal
Mestre em Política Internacional e Pós-graduado em Comércio Internacional pela Universidade Livre de Bruxelas, Bélgica, Jogi Humberto Oshiai monitora o relacionamento econômico-comercial de países da América Latina com a União Europeia, deu uma entrevista exclusiva aos Portais Avicultura e Suinocultura Industrial sobre o atual momento que a indústria de proteína animal brasileira vive diante das investigações em grandes exportadores.

Oshiai afirma que essa situação era tudo que o agrongócio não poderia passar nesse momento em função da crise política e econômica que o Brasil tenta superar. ‘’De imediato posso afirmar que todos nós do setor passamos um fim de semana terrível em função desta catástrofe que poderia e talvez deveria ter sido evitada”, observa.

Atuante nas nas áreas de Política Comercial, Negociações Comerciais, Política Alimentar e Agrícola , Oshiai espera que as investigações sejam um ponto de partida para que seja formada uma comissão de modernização e dimensionamento de uma nova estrutura do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (DIPOA/MAPA) condizente com a estatura do setor de proteína animal no mercado interno e externo. Acompanhe a entrevista:

Como a notícia da operação Carne Fraca, da Polícia Federal brasileira, tem repercutido na Europa?

A crise da Carne Fraca era tudo o que o nosso setor de agronegócios não necessitava no momento especialmente em função da crise política e econômica no Brasil e, sobretudo, por ter a cadeia produtiva do setor de carnes lutado por anos e anos contra todas as adversidades para desenvolver e manter o nome do Brasil entre os principais produtores/exportadores de proteína animal de qualidade.  De imediato posso afirmar que todos nós do setor passamos um fim de semana terrível em função desta catástrofe que poderia e talvez deveria ter sido evitada para não ter possibilitado aos nossos concorrentes europeus utilizar desta crise como munição para fortalecer o lobby deles contra a importação de carnes do Brasil.

As notícias da operação abalaram a confiança no Sistema de Inspeção Federal (SIF) do Brasil?

Qualquer crise no setor de alimentos abala a confiança de qualquer sistema de inspeção e não somente do nosso SIF. Neste caso em particular, todos nós pudemos observar a inundação de comentários de leigos em proteínas animal em todas as redes sociais e na mídia também. Em um fim de semana milhões de pessoas se tornaram veterinários, zootecnistas, agrônomos, fiscais agropecuários, empresas exportadoras, políticos e até PHDs em carnes. Quantas besteiras a respeito da CARNE FRACA foram postadas em dois dias! E tudo isto contribuiu de certa forma para abalar a credibilidade do SIF, das empresas e de todo o sistema produtivo de carnes. No entanto, contribuições na discussão de profissionais amigos como Pedro de Felício, Bassem, Vantuil, Marcio e outros amigos e colegas do setor privado e do governo serviram para separar o joio do trigo para poder informar aos aos nossos parceiros comerciais e a mídia que o tema da CARNE FRACA não é um  um problema de sanidade animal e pública, mas sim de fraudes localizadas. E isto é assunto da Polícia Federal!

A União Europeia suspendeu as importações de carnes oriundas das empresas envolvidas. O senhor acredita em uma ampliação dessa medida?

Tomei conhecimento de que foi decidido pelas autoridades brasileiras acelerar o processo de auditoria nos estabelecimentos citados na investigação da Polícia Federal, 21 unidades no total. Seis dessas já foram suspensas e todos as 21 serão imediatamente colocadas sob regime especial de fiscalização a ser conduzida por força tarefa específica do Mapa.

Dos 2,3 mil fiscais federais, apenas 33 estão sendo investigados e que, das 4.837 unidades sujeitas à inspeção federal, apenas 21 supostamente envolvidas em eventuais irregularidades. Das 21 apenas seis exportaram nos últimos 60 dias. Deste universo de unidades a UE proibiu somente importações de quatro unidades. E a unidade de bovinos não é nem mesmo associado da ABIEC.

A DG SANCO, Saúde do Consumidor, da Comissão Europeia tem legislação rigorosa sobre o tema de sanidade pública e animal que serve de paradigma no mundo. Acredito sinceramente que a Sanco não mudará uma vírgula do quadro regulatório da UE para causar danos ao Brasil somente para defender os interesses de certos grupos europeus. Portanto, uma eventual ampliação da medida adotada dependerá do resultado e do modo como as autoridades brasileiras irão encaminhar este consideravelmente sensível.

Os acordos sanitários entre União Europeia e Brasil podem passar a ser mais ainda mais rigorosos, principalmente por estarem citadas o nome de gigantes do setor, como BRF e JBS?

Hoje se faz necessário apoiar as investigações da polícia federal e dar garantias oficiais para os países importadores inclusive para a UE para evitar eventualmente outras sanções de imediato e impedir que as munições que demos com esta crise para o lado europeu deixe as nossas excelentes carnes fora da agenda nas próximas negociações Mercosul-UE e também de eventuais discussões sanitárias bilaterais entre o Brasil e a UE.

Para conhecimento, todas as importações do Brasil passam por novas avaliações nos países compradores da Europa? Como funciona essa inspeção na chegada?

Existe uma legislação da UE pertinente para este assunto que se aplica para todas as importações de países terceiros que enquadra igualmente as importações do Brasil. Vale assinalar que no caso de importações de carne bovina o Brasil é o único país penalizado com as exigências da lista Traces que obriga o Brasil a habilitar inclusive as fazendas.

O Brasil pode perder mercado internacional em aves, suínos e bovinos?

Não tenho uma bola de cristal para quantificar financeiramente, mas a perda será inevitável sobretudo de imagem.

O senhor acredita ser chegado o momento de modernizar o Sistema de Inspeção Federal no Brasil (SIF)? Por quê?

Devolvo a pergunta com uma outra pergunta a redação e aos leitores: Daniel Gouvêa Teixeira, o fiscal agropecuário, cumpriu com o seu dever ou não para que qualquer análise desta crise da Carne Fraca possa ser feita uma vez que todos nós da cadeia produtiva já pagamos um caro preço? A meu ver, Daniel fez um favor ao Brasil caso a sua denúncia sirva para que o Ministro do MAPA, Blairo Maggi,  instale uma comissão de modernização e dimensionamento de uma nova estrutura do DIPOA/MAPA que seja condizente com a estatura do nosso setor de proteína animal no mercado interno e externo para todos os produtos de proteína animal inclusive da pesca que deve ficar sempre sob a responsabilidade do MAPA e não do MDIC ou de qualquer outro Ministério ou eventual Secretaria para que o nosso setor não seja sempre vítima de um país sem credibilidade necessária e que tenta reverter esta crise e outras sempre  na retórica.

Qual o modelo mais adequado a ser adotado no País?

Não existe o modelo ideal, mas poderíamos iniciar inclusive apoiando a Lava Jato hoje mais do que nunca um dever e uma forma para mudar a imagem do Brasil. Acredito que desta maneira poderemos no futuro evitar queda na demanda e desconfiança internacional em relação aos produtos brasileiros no futuro sempre prejudicados direta ou indiretamente pela corrupção seja de empresários seja de representantes do governo, especialmente dos políticos. Julgamento para os suspeitos e CADEIA para os culpados poderia ser a melhor fórmula para que inclusive um modelo mais adequado para o Brasil possa ser adotado e implementado.

Avicultura e Suinocultura Industrial
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