AveSui2021
20-Jul-2020 10:45
Comentário

Desempenho de matrizes suínas em resposta à betaína natural alimentada durante a lactação e pós-desmame em meses de inverno e verão

Em dados brasileiros, apresentados por Agriness (2020), pode-se observar que o número médio de nascidos vivos/fêmea/ano no Brasil foi de 27,22 leitões em 2008, para 31,02 leitões em 2019, incremento de 14%.

Nas últimas décadas, o tamanho da leitegada e o número de leitões desmamados por matriz/ano foram consideravelmente elevados, principalmente devido à maior produtividade deste animal visando esta característica nos processos de seleção. Em dados brasileiros, apresentados por Agriness (2020), pode-se observar que o número médio de nascidos vivos/fêmea/ano no Brasil foi de 27,22 leitões em 2008, para 31,02 leitões em 2019, incremento de 14%. Neste mesmo período, houve uma redução do peso médio do leitão ao nascimento de 1,47kg em 2008 para 1,37kg em 2019, uma perda de 100gr/leitão, ou de 6,8%.

Visto isso, várias pesquisas estão sendo realizadas por diversos centros de investigação, visando estratégias que incrementem a performance desta matriz durante os períodos de gestação e de lactação, sendo uma linha promissora o incremento de doadores de grupo metil, em especial durante os meses mais quentes do ano. Para validar esta hipótese, em uma publicação recente (Mendonza et al., 2020) avaliaram o desempenho reprodutivo das matrizes suínas com uso de betaína natural, em diferentes época do ano. De acordo com a revisão realizada pelos autores, durante os meses de verão, os dias não produtivos aumentam de 5 a 19 dias; isso se deve principalmente a um atraso no estro ou perda de embriões após a inseminação. Além disso, estima-se que o número total de leitões nascidos seja reduzido em 0,05 leitões para cada 1°C acima de 20°C no dia da inseminação (Bloemhof et al., 2013). Durante a fase de lactação, para as temperaturas acima de 25°C, as matrizes suínas diminuem a ingestão de ração em 0,5 kg/d a cada 1°C adicional (Quiniou & Noblet, 1999) e aumentam a mobilização de tecidos para sustentar a produção de leite (Spencer et al., 2003). Matrizes suínas com pouca ingestão de ração durante a lactação, geram uma pressão ainda maior no período reprodutivo subsequente com um balanço energético negativo, que atua como um feedback negativo para evitar o início de um novo ciclo reprodutivo.

A betaína, ou tri-metilglicina, é um doador de metila e um osmorregulador que se acumula naturalmente em organismos que são adaptados às condições salinas ou secas. O papel da betaína como osmólito tem implicações importantes, pois pode manter o volume e a integridade das células sob condições desafiadoras, incluindo estresse térmico. Ramis et al. (2010), avaliaram a betaína para matrizes durante a lactação e relataram uma melhora no ganho de leitegada. Além disso, a suplementação dietética de betaína nestas matrizes em lactação reduziu o intervalo de desmama-estro e aumentou o tamanho subsequente da leitegada.

A betaína pode ser benéfica para o embrião durante o implante do embrião (como osmoprotetor) auxiliando na divisão celular inicial, e reduzindo a homocisteína plasmática. A betaína natural oferece vantagens extras por se tratar de um produto de mais elevada concentração (praticamente pura – conteúdo acima de 96% de pureza), além de ter um potencial biológico superior ao seu análogo, quimicamente sintetizado (Santos et al., 2019).

O objetivo do estudo de North Carolina, foi avaliar o impacto da betaína natural na dieta de fêmeas suínas alimentadas durante a lactação e em dietas pós-desmame como estratégia de melhora de performance produtiva em matrizes expostas ao estresse térmico. Para isso, dois estudos foram conduzidos, sendo o primeiro durante o verão (Exp. 1) e o segundo durante os meses de inverno (Exp. 2).

Os tratamentos foram projetados como um arranjo fatorial 2 × 2 (níveis de betaína natural na dieta - 0 ou 0,2%) e período de suplementação (durante a lactação ou durante o período de pós-desmame => até 35 dias após a inseminação). Para o Exp. 1, 322 fêmeas jovens (ordem de parto de 1 e 2) e 327 matrizes (ordem de parto 3 a 6) foram utilizadas no período de verão dos Estados Unidos (experimento ocorreu entre Junho e Setembro). Para o Exp. 2, estes números foram de 300 de fêmeas jovens e 327 matrizes, porém os animais foram alojados durante o período de inverno Americano (experimento ocorreu entre Fevereiro a Março).

Nos dois experimentos, as matrizes foram alojadas nas mesmas salas de parto e no mesmo galpão de criação. As temperaturas ambientais nas salas de parto foram fixadas em 23,5°C no parto e gradualmente reduzidas para 21°C no desmame. Calor ou resfriamento suplementar foram fornecidos usando aquecedores a gás e resfriadores de células úmidas. Para o Exp.1., a temperatura média da sala de parto durante o período de lactação foi de 25,4±2,3°C (mínimo de 16,4 e máximo de 35,7°C) e a umidade relativa foi de 72,5±7,4% (mínimo de 37,4% e máximo de 95,1%), resultando um índice de sensação térmica de 27,0°C (mínimo de 17,8 e máximo de 41,2°C). As matrizes estavam acima de uma temperatura máxima ideal de 26°C em 48,9% do período de alojamento; e acima de uma sensação térmica máxima ideal de 26°C por 62,3% do tempo. Durante o período pós-desmame, a temperatura destes experimento foi de 23,3±2,9°C (mínimo de 16,8 e máximo de 31,2°C) e a umidade relativa foi de 72,1±8,6% (mínimo de 40,9% e máximo de 93,2%), com um índice de sensação térmica de 24,9°C (mínimo de 18,0 e máximo de 36,6°C). As matrizes estavam acima de uma temperatura ambiente de 26°C por 19,1% do tempo e acima de uma sensação térmica de 26°C por 28,0% do tempo.

Para o Exp.2., a temperatura média da sala de parto durante o período de lactação foi de 23,1±2,7°C (mínimo de 15,1 e máximo de 33,7 °C) e a umidade relativa foi de 59,3±13,5% (mínimo de 2,7% e máximo de 95,2%), resultando com um índice de sensação térmica o valor de 25,1°C (mínimo de 16,2 e máximo de 37,2°C). As matrizes estavam acima de uma temperatura ambiental de 26°C em 16,3% do período de alojamento; e acima de uma sensação térmica de 26°C por 20,6% do tempo. Durante o período pós-desmame, a temperatura destes experimento foi de 23,9±2,0°C (mínimo de 17,4 e máximo de 33,5°C) e a umidade relativa foi de 69,9±12,3% (mínimo de 8,4% e máximo de 93,5%), com um índice de sensação térmica de 25,1°C (mínimo de 18,3 e máximo de 41,7°C). As matrizes estavam acima de uma temperatura ambiente de 26°C por 15,2% do tempo e acima de uma sensação térmica de 26°C por 21,1% do tempo.

Um resumo dos resultados pode ser observado na Tabela 01 (resumo dos principais resultados significativos agrupados por ordem de parto) e Tabela 02 (resumo dos principais resultados separados por todos os tratamentos).

Quanto aos dados da Tabela 01, de forma geral, as fêmeas que consumiram betaina natural na fase de maior temperatura ambiental tiveram uma maior perda de peso na lactação (P=0,024), porém geraram uma tendência (P=0,071) de um menor nível de animais de baixa viabilidade (animais com menos de 3,62kg nos 21 dias de lactação), ou seja, melhor aproveitamento desta leitegada. Fatores que estão correlacionados, pois maior produtividade de peso de leitões pode gerar maior pressão de perda de pesa destas fêmeas. Ainda analisando os dados Tabela 01, estas mesmas vantagens não foram observadas durante o período de inverno, onde a única diferença estatística observada nestes parâmetros biológicos foi na taxa de respiração (movimentos/minuto, P=0,013) que obtiveram resultados opostos para fêmeas novas x fêmeas de maior idade comparando-se o uso de betaína natural.

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Na Tabela 02, segue apresentados os dados mais relevantes do trabalho, levando-se em consideração o período de uso da Betaína Natural (durante a fase de lactação e no período de pós desmame), onde fica claro que quanto maior a temperatura ambiental, maior será a pressão sobre estas fêmeas, o que resulta em positividade no trabalho de produtos osmoprotetores; por exemplo, houve uma forte tendência estatística (P=0,059) para uso de betaína natural quanto a relação do número de animais nascidos/desmamados no Exp. 01, com um resultado distinto nas fases dependendo do ciclo de produção, sendo que fêmeas de ciclo 1 e 2 que consumiram betaína natural durante a fase de pós desmame geraram melhor performance, e quando comparamos as fêmeas de mais de três ciclos, o uso na fase de lactação gerou os melhores resultados. Ainda analisando esta tabela, quando observa-se o número de nascidos (sejam totais ou vivos), algo semelhante ocorre. Trato de realizar esta comparação, mesmo com valores altos de P, pois os autores encontraram efeito significativos para uma interação dos fatores analisados no Exp. 01. Analisando estes dados, fica claro que para este item, o uso de Betaína durante as primeiras fases de produção pode gerar um efeito positivo no número de nascidos (vivos ou totais), que não foi observado em fêmeas de maior idade. Quanto ao Exp. 02 (épocas de clima mais frio), não houve nenhum efeito positivo neste parâmetros.

Como conclusão os autores comentam que o uso de 0,2% de betaína natural durante os meses de inverno, não beneficiou sensivelmente o desempenho da matriz, porém durante o verão, a suplementação de betaína na lactação aumentou o tamanho da leitegada subsequente nas porcas com ordem de parto superior a 4+. A betaína alimentada durante o período pós-desmame reduziu o intervalo de desmame-estro e a taxa de parto, aumentando o número total de leitões nascidos de matrizes primiparas e reduziu o número total de leitões nascidos de matrizes com mais de 4 ciclos.

O uso desta tecnologia pode ser ainda mais eficiente em situações de criação tropicais que temos na américa latina, onde os dados de sensação térmica nos galpões de criação destas fêmeas, usualmente ultrapassam as temperaturas de sensação térmica descritas neste estudo.

Redação SI

Alexandre Brito

Alexandre Brito é médico veterinário, doutor em nutrição animal

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