20-Dez-2017 14:57
Comentário

E se formulássemos duas dietas para porcas lactantes? - Por Lucas A. Rodrigues

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Avaliando cronologicamente a vida produtiva de uma fêmea suína, podemos dividi-la, de maneira prática, em recria, reposição, gestação e lactação. Em muitos sistemas de produção, o nutricionista tem a autonomia e oportunidade de trabalhar com estratificações de fases, como duas fases de recria, gestação e pré-parto, o que melhora o atendimento às exigências da fêmea. Entretanto, a prática comum de arraçoamento de porcas lactantes utiliza sempre uma mesma dieta, alterando apenas o fornecimento, com restrição próxima ao parto, migrando para fornecimento à vontade com evolução da lactação. Considerando o acelerado desenvolvimento que a genômica proporcionou para as fêmeas, podemos inferir que a exigência nutricional do plantel reprodutivo será crescente (maior prolificidade, maior peso ao nascimento etc.) e cada vez mais específica (mobilização de tecidos, captação de nutrientes pela glândula mamária etc.). Dito isso, o fornecimento de duas dietas durante a lactação merece discussão? O presente comentário tentará elucidar essa questão.

Primeiro é preciso manter em mente, que as porcas possuem arranjos intrínsecos que garantem a produção de leite através de mobilização de reservas corporais, em cenários onde o consumo voluntário não atenda às suas necessidades. Contudo, assistimos porcas perdendo considerável peso durante a lactação mesmo alimentadas em regime ad libitum, o que sugere que em várias situações o consumo das fêmeas é realmente insuficiente. Modelos matemáticos recentes sugerem um consumo necessário de 9 kg/dia para atendimento de exigência no pico de lactação.

Em termos de formulação, teríamos de trabalhar com uma dieta basal adicionada de um suplemento: a dieta basal se assemelharia a uma dieta de gestação e a dieta suplementar, fornecida em quantidades específicas ao longo da lactação, seria similar a uma dieta de lactação altamente energética (aumento de 5% a 9% na densidade energética). A energia para produção de leite, assim, seria calculada com base na produção esperada, no conteúdo energético médio no leite em um dia específico da lactação e na eficiência de utilização da energia metabolizável para produção de leite. Um estudo dinamarquês mostrou, recentemente, que, nesse regime, o fornecimento de energia fica abaixo da exigência na primeira semana, embora a porca não perca peso, o que se explica pelo útero em regressão que fornece aminoácidos e energia para o sangue, disponibilizando-os para produção de leite.

A premissa de formular duas dietas de lactação seria alimentar as fêmeas lactantes de acordo com a produção individual de leite, afinal, porcas de diferentes ordens de parição produzem quantidades diferentes de leite e possuem maior exigência de mantença com o avanço da idade. A exigência de lisina, por exemplo, é quase exclusivamente orquestrada pela produção de leite. Porcas alimentadas no regime atual tendem a ficar em balanço energético progressivamente menos negativo, atingindo níveis próximos a zero perto do desmame. Em um regime de duas dietas, por outro lado, elas permaneceriam em balanço energético negativo durante toda a lactação, o que tem relação com a maior produção de leite e maior concentração de gordura láctea.

Para o desenvolvimento do estudo de formulação de precisão das fêmeas lactantes, o ideal seria manter porcas em gaiolas metabólicas ou câmaras respirométricas. Como sabemos, esses procedimentos são laboriosos e demorados, assim, os modelos fatoriais surgem como ferramenta crucial no entendimento das exigências nutricionais de porcas lactantes.

De toda forma, um regime de duas dietas parece diminuir a concentração plasmática de glicose e triglicérides, o que sugere maior aporte de nutrientes direcionado ao úbere para síntese de lactose e gordura láctea. Além disso, parece haver um menor consumo, especialmente na quarta semana de lactação, reforçando a ideia de melhor atendimento às exigências nutricionais.

Um regime de duas dietas é capaz de aumentar a produção de leite e GPD da leitegada, além de reduzir deficiências no suprimento de nutrientes ao longo da lactação, reduzindo a perda de peso no período pós-parto. Estudos são necessários para adequar essa questão à operação e capacidade das fábricas, testar os efeitos na longevidade das fêmeas e a longo prazo na leitegada, além de avaliar o custo benefício da inclusão de mais uma dieta de lactação.

Lucas Alves Rodrigues

Lucas Alves Rodrigues é Médico Veterinário (UFMG), Mestre em Zootecnia (UFMG) eAnalista de Nutrição Pleno (Suínos) Vaccinar

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