04-Mai-2018 14:06 - Atualizado em 04/05/2018 16:47
Comentário

Fitase e suas Relações com Ferro, Óxido de Zinco e Oportunidades de Redução de Custo - por Alexandre Brito

No mês de Abril de 2018, tive o privilégio de percorrer quatro países da América Latina junto com nosso diretor técnico de pesquisa e desenvolvimento Mike Bedford na Jornada Técnica LAM da AB Vista.

Nesta oportunidade, tivemos contato com os principais produtores de suínos e aves do Brasil, Argentina, Chile e Colômbia, onde abordamos nas reuniões o uso de enzimas como ferramentas para melhorar a competitividade (eficiência alimentar) e na modulação de flora intestinal (nutrologia).

Um dos principais temas que nos chamou a atenção, refere-se ao período de grande pressão nos custos das matérias primas que vivemos em nosso continente. Para se ter uma ideia, apenas para falarmos sobre o preço do milho, de acordo com o portal do Canal Rural o valor deste cereal variou 17% em 2 meses no Brasil, e ainda deve subir mais. De acordo com esta a fonte, a preocupação com o clima na Argentina, as especulações sobre o relatório de oferta e demanda que será divulgado pelo Departamento da Agricultura Norte Americano, bem como a retenção de estoques pelos Cerealistas e Cooperativas no Brasil, estão demandando forte pressão sobre estes preços. Esta pressão também refletiu no mercado de farelo de soja, onde os valores médios brasileiros oscilaram, no mesmo período, de R$ 50,00 a 120,00/tonelada, dependendo da região.

Estas variações nos custos de matérias primas, nos coloca sempre em constante desafio frente a uma busca por oportunidades de melhoria no aproveitamento dos nutrientes naturalmente presentes na dieta. Uma excelente ferramenta que devemos considerar refere-se ao uso de enzimas digestivas, em especial com estratégias que aliam o uso de produtos de elevada performance, como por exemplo as enzimas digestivas de alta atratividade para seu substrato.

Dentre estas, a fitase é provavelmente uma das enzimas exógenas mais estudadas e exploradas na nutrição de monogástricos. Seu efeito no desempenho, retenção e disponibilidade de muitos nutrientes, incluindo os macro-elementos e oligoelementos, tem sido documentado em muitos estudos em diferentes espécies animais. Em uma excelente revisão, Bedford & Schulze (1998) descrevem que o ácido fítico, o substrato destas enzimas, é uma forma de armazenamento de fósforo na maioria das plantas e em particular nos cereais utilizados na nutrição monogástrica. Adição de fitase nas rações de suínos traz benefícios como melhora de digestibilidade mineral e da proteína através da interferência na atividade de pepsina e tripsina. Desta forma, há muitas vantagens a serem obtidas com o uso desta enzima, como a hidrólise do fitato e de seus ésteres, reduzindo os efeitos deletérios deste fator antinutricional.

Este fator deve ser considerado pelos nutricionais como uma real ferramenta de redução de custos de formulação, pois além dos custos de concentrados energéticos e protéicos descritos acima, os países latino-americanos ainda sofrem com custos elevados de macro-minerais. No Gráfico 01, encontra-se apresentado um material desenvolvido pelo Departamento Técnico da AB Vista LAM com os custos do fósforo em cinco mercados de nosso continente, onde podemos observar que existem países com custo de fontes de fósforo até cinco vezes mais elevados do que aqueles observados no Brasil.

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Gráfico 01. Custos do fósforo em cinco mercados latino-americanos, onde: Série 1 = refere-se a porcentagem de aumento no custo de formulação (em U$/ton) para cada 0,05% de elevação nos níveis de fósforo disponível das dietas de suínos na fase de crescimento 1; Série 2 = Comparação dos valores da Série 1 entre os países, levando-se em consideração uma base 100 para o custo de formulação do fósforo disponível das dietas brasileiras.

Porém, em uma série de publicações recentes, se observa que a ação do fitato não possui uma relação meramente com macro-nutrientes. Kim et al. (2018) trabalharam em uma revisão sobre como altas doses de fitase e níveis de ZnO podem influenciar o conteúdo circulante de ferro (Fe) em leitões nos primeiros dias de vida. De acordo com os autores, há muito se considera que uma suplementação de Fe dextrano injetável dentro de 48 a 72 horas após o nascimento satisfaria os requerimentos deste mineral para leitões e, portanto, a anemia ferropriva não seria um problema que compromete-se o potencial de crescimento genético de leitões.

No entanto, recentes pesquisas indicam uma prevalência significativa de deficiência de Fe e anemia em leitões de rápido crescimento criados em sistemas de produção intensiva (Gráfico 02). Esta revisão forneceu uma visão sobre a fisiologia de como a homeostase do Fe é mantida através da regulação da capacidade de absorção, status deste mineral em matrizes suínas e nos leitões, além dos fatores dietéticos envolvidos na regulação da capacidade de absorção deste micro-mineral (como a presença dos ésteres de fitato). Estas causas de anemia estão correlacionadas a redução da biodisponibilidade do Fe pelo o antagonismo entre os íons metálicos divalentes (Ca:Zn:Fe); além do aumento da proporção de fitato: ferro na dieta devido (devido a tendência de incremento de fontes de proteína vegetal como resultado de redução de custos).

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Gráfico 02. Níveis de ferro (Fe) em leitões ao desmame (21,8 ± 2,1 dias) e 3 semanas pós-desmame pesquisados em 20 granjas comerciais canadenses. Nível de hemoglobina (g/l) foi utilizado como critério: normal > 110; deficiência de <110 a > 90; e anémicos <90. O número total de leitões utilizados nestas avaliações foram 1095 e 1023 leitões desmame e 3 semanas pós-desmame, respectivamente.

Fonte: Perri et al., 2016.

Os resultados indicam que, mesmo um nível baixo de fitato ou de seus ésteres, existe uma redução significativa da biodisponibilidade do Fe; particularmente, em um sistema de produção onde os níveis farmacêuticos de ZnO são usados para controlar a disbiose bacteriana pós-desmame. De maneira geral, o aproveitamento do Fe pode ser significativamente comprometido devido ao antagonismo entre o zinco e o Fe, em especial em dietas com baixo ou nenhum uso de fitase, ocasionando anemia (Gráfico 02). O uso de superdosagem de fitase como estratégia alimentar resultou em uma melhoria significativa no status de Fe dos leitões, e também reduziu significativamente a perda de desempenho, deixando mais seguro o uso de ZnO em doses mais elevadas.

Alterações nas estratégias de uso de fitase para um aproveitamento de outras fontes de nutrientes (que não sejam apenas Ca e P) exemplificam como nossa visão tradicional deve ser constantemente aperfeiçoada visando utilizamos todas as alternativas que possuímos frente a novos desafios, esta visão é cada vez mais associada a uma estrutura de custos moderna.

Redação SI

Alexandre Brito

Alexandre Brito é médico veterinário, doutor em nutrição animal

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