Guia Gessulli
02-Set-2020 10:39 - Atualizado em 02/09/2020 11:09
Comentário

Nutrição e Saúde Animal: "Fatores intimamente conectados e dependentes entre si"

Animais que são alimentados adequadamente são mais resistentes à infecções bacterianas e parasitárias, o que pode ser parcialmente devido a uma melhor integridade do tecido corporal, maior produção de anticorpos, melhor imunidade à doenças ou outros fatores

Fornecer o consumo adequado de todos os nutrientes essenciais é fundamental para manter a boa saúde dos animais. Animais que são alimentados adequadamente são mais resistentes à infecções bacterianas e parasitárias, o que pode ser parcialmente devido a uma melhor integridade do tecido corporal, maior produção de anticorpos, melhor imunidade à doenças ou outros fatores. Além disso, uma nutrição adequada é essencial para uma recuperação rápida de todas as doenças. A saúde ideal do plantel requer que todas as partes do fluxo de produção se encaixem em um sistema complementar. Os programas de saúde dos animais, em especial daqueles de interesse zootécnico, só podem ser totalmente eficazes se estes tiverem uma nutrição adequada, enquanto a utilização de nutrientes só pode ser otimizada se os animais igualmente apresentarem um alto estado de saúde. Em outras palavras, um alto estado de saúde aumenta a produtividade e a eficiência, mas também aumenta as necessidades de nutrientes. Portanto, nutrição e saúde estão intimamente conectadas e dependem uma da outra. Assim inicia a apresentação do uma excelente revisão realizada pela equipe de suinocultura da universidade de Minessota/EUA (Shurson et al., 2010).

De acordo com os autores, existem conexões e relações entre nutrição e saúde dos animais (Tabela 01), pois a saúde e o estado imunológico afetam a partição de nutrientes, além de seus requerimentos. Além disso, os efeitos das deficiências e toxicidades de nutrientes geram reflexos diretos na saúde e potencial produtivo destes animais. Toxinas e fatores antinutricionais de alimentos normalmente fornecidos aos animais igualmente podem impactar negativamente no desempenho dos animais. Por fim, os autores comentam como é importante caminharmos para um conhecimento mais pleno dos potenciais de redução destes fatores antinutricionais (algo que definimos como um conceito de Nutrologia, que já comentamos em colunas anteriores), bem como na otimização dos recursos da dieta para a melhoria da saúde fornecido por alguns ingredientes. Neste cenário, o uso de aditivos alimentares (como enzimas digestivas exógenas) possuem um papel de relevância.

Destes tópicos comentados pela equipe de Minessota, uma corrente que vem ganhando força refere-se a avaliação de ingredientes com posição (exemplo com técnicas via NIR), para determinação do conhecimento de algumas frações até pouco tempo pouco utilizadas (como o seu conteúdo de fibra dietética); além do conhecimento de variações de fatores antinutricionais ali presentes (ex.: conteúdo de fitato).

Esta identificação de forma rápida e precisa, permite ao nutricionista elaborar planos nutricionais para maximizar a utilização deste conteúdo de fibra, bem como de minimizar os efeitos destes fatores antinutricionais, tudo em prol de uma melhor modulação do microbioma dos animais.

Tabela 01. Sinais clínicos da deficiência de energia, proteína, vitaminas, minerais e ácidos graxos essenciais em suínos.

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Código: 1Redução da gordura em proporção ao peso corporal; 2Anemia; 3Má eficiência alimentar; carcaça com excesso de gordura; 4Perda de pelo; pele escamosa, dermatite. Fonte: Shurson et al. (2010), adaptado de Reese & Miller (2006)

Um bom exemplo deste conceito pode ser visto no trabalho de uma equipe de pesquisadores finlandeses, onde os autores descrevem que as diferentes seções do trato intestinal de frangos de corte são habitadas por microbiotas especializadas e adaptadas às condições físico-químicas e a fisiologia do hospedeiro; além de nutrientes disponíveis neste habitat. O intestino delgado é dominado por bactérias ácido láctico dependentes que têm necessidades complexas de nutrientes semelhantes às do próprio frango. Os lactobacilos são incapazes de sintetizar aminoácidos para seu anabolismo e, portanto, são altamente dependentes da disponibilidade de aminoácidos no ambiente de crescimento. Assim, no intestino delgado há competição por aminoácidos entre a microbiota e o próprio animal hospedeiro. De acordo com estimativas aproximadas, os lactobacilos no intestino delgado podem assimilar de 3 a 6% do total de aminoácidos da dieta (Tabela 02), como comentam os autores finlandeses Apajalahti & Vienola (2016).

Tabela 02. Requerimento de aminoácidos de algumas bactérias no intestino de frangos de corte.

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Onde: + Crescimento de cepas avaliadas dependente de aminoácidos. ? Crescimento de cepas avaliadas parcialmente dependente de aminoácidos. - Crescimento de cepas avaliadas não dependente de aminoácidos. Fonte: Apajalahti & Vienola (2016).

Ainda de acordo com estes autores, se a proteína for altamente digerível e os aminoácidos forem amplamente absorvidos no intestino delgado superior, onde o crescimento bacteriano é suprimido, a proporção capturada pelo hospedeiro pode ser maior. Novamente, o uso de enzimas exógenas que otimizam a digestibilidade da dieta, também são susceptíveis de fornecer uma vantagem competitiva ao frango, oferecendo um maior controle de crescimento para bactérias dependentes de aminoácidos. Os nutrientes que escapam do íleo compreende o conteúdo de nutriente/resistente de origem dietética, como por exemplo a proteína assimilada a bactérias intestinais e a proteína endógena sintetizada e secretada pelo hospedeiro, sendo esta última sintetizada nos tecidos do hospedeiro a partir de aminoácidos da dieta e, portanto, representando a proteína endógena verdadeira.

As atividades das bactérias do intestino delgado afetam o tamanho da fração de proteína microbiana, e também, a produção de proteínas endógenas originadas da mucina, células epiteliais e anticorpos. Estes nutrientes provenientes do bypass ileal estão sujeitos à fermentação por bactérias putrefativas no ceco, gerando ácidos graxos de cadeia ramificada, além de indóis, fenóis, cresol e amônia. A putrefação produz muitos compostos tóxicos e prejudiciais, que, em altas concentrações, podem ter efeitos adversos no crescimento, saúde e no desempenho do frango.

Todas as ações para reduzir a quantidade destes nutrientes nos cecos também reduzem potencialmente a produção de metabólitos de fermentação tóxicas no intestino grosso. Desta forma, o uso de aditivos enzimáticos que facilitam a digestão destas proteínas no intestino superior e dos carboidratos solúveis resistentes à digestão ileal reduzem a putrefação cecal. No intestino distal, a fermentação sacarolítica é preferida e a putrefação acelera somente quando os carboidratos utilizáveis ??estão esgotados. Os oligo e polissacarídeos (AXOS) produzidos in situ por enzimas degradantes de PNA, ou adicionados diretamente à dieta, podem gerar grande vantagem na promoção de saúde intestinal pelo seu efeito prebiótico.

De forma resumida, podemos associar as buscas meramente nutricionais para incrementar o papel de nutrição para melhoria de desenvolvimento de uma flora mais correta como toda e qualquer ação que eleve ao máximo a digestibilidade de proteínas, amidos e gordura nas frações mais superiores do intestino delgado, evitando ao máximo que este conteúdo chegue ao cecos dos animais; bem como incrementar ao máximo a fermentabilidade da fibra (seja da fração solúvel ou insolúvel) nos cecos das aves ou cólon de suínos, gerando ao máximo a produção/colonozação desta câmera de fermentação distal dos animais por bactérias do filo Firmicutes (Figura 01).

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Fig 01.Composição média da microbiota em granjas comerciais de frangos de corte. Os diagramas mostram a composição média da microbiota (%) no íleo (painel superior) e ceco (painel inferior) para 10 granjas europeias. Fonte: Apajalahti & Vienola (2016

Esta definição, embora simplista, é de execução complexa e exigirá cada vez mais um profissional que entenda destas interrelações nutricionais e como podemos retirar proveito dela. Nutrologia!

 

Redação AI/SI

Alexandre Brito

Alexandre Brito é médico veterinário, doutor em nutrição animal

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