12-Abr-2018 13:38
Comentário

O cio na lactação como ferramenta, não como gargalo - por Lucas A. Rodrigues

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Quando pensamos em aumento ou diminuição de um sistema de produção de suínos, vêm à cabeça duas vias chave: alterar o número de fêmeas do plantel e/ou intervir na idade de desmame. Esse pensamento engessado, de certa forma, advém da propensão das porcas a permanecerem acíclicas, enquanto amamentam sua leitegada. Se por um lado, esse arranjo fisiológico facilita o manejo de inseminação e dos lotes, alojamento e alimentação das porcas, por outro diminui a flexibilidade de modificar o sistema de produção, de acordo com demandas mercadológicas ou produtivas.

Logo, se explorássemos estratégias capazes de desacoplar a retomada do ciclo reprodutivo da ocorrência do desmame, poderíamos aumentar a produtividade sem depender exclusivamente do aumento de prolificidade das fêmeas. Faz-se necessário entender como o trato reprodutivo e o organismo das fêmeas se comporta, para que possamos tratar o cio da lactação como uma ferramenta e não como um gargalo.

Após o parto, três eventos ocorrem com a porca: involução de seu útero (2 a 3 semanas) e corpo lúteo (redução de 3x, do parto aos 28 dias pós-parto) para suportar a gestação subsequente, há maturação do pool de folículos ovarianos e desenvolvimento de mecanismos endócrinos para retomada do ciclo reprodutivo. De maneira geral, as porcas precisam de um período mínimo de 18 a 24 dias, entre o parto e desmame, para que índices como taxa de parto, sobrevivência embrionária e tamanho de leitegada não sejam drasticamente comprometidos no ciclo subsequente.

O crescimento folicular, por sua vez, ocorre expressivamente a partir dos 21 dias pós-parto. Os folículos antrais ou maduros têm seu crescimento e maturação orquestrados por dois hormônios: o LH (hormônio luteinizante) e o FSH (hormônio folículo-estimulante). O LH e o FSH são liberados através de estímulo do GnRH (hormônio liberador de gonadotrofinas), cuja liberação é suprimida durante a lactação, devido aos opióides endógenos secretados pela ação de mamada dos leitões.

O pontapé inicial para estímulo à ovulação durante a lactação deve se pautar em diminuição da intensidade de mamadas (mamada intermitente ou “split weaning) e/ou estimulação da liberação de GnRH (exógeno ou através de exposição a machos reprodutores). Duas fatias de tempo mostram-se possíveis para tal estímulo: logo após o parto (a porca apresenta folículos grandes e responsivos ao LH, ainda não há estímulo de mamada) ou 21 dias pós-parto (menor intensidade de mamada que estimula crescimento folicular, maiores reservas de LH que aumentam as chances de ocorrência de ovulação por estímulo externo).

Para o processo de mamada intermitente, devem ser avaliados parâmetros como duração, grau e tempo (em relação ao parto) de separação. A melhor resposta parece ocorrer quando esse manejo é levado até os dias 19-21 de lactação. A técnica de “split weaning” consiste basicamente em desmamar os leitões mais pesados da leitegada, reduzindo o estímulo de mamada, deixando os leitões de crescimento mais lento com a possibilidade de mamar e serem desmamados em idade mais elevada.

A exposição a machos reprodutores (15 a 20 min, a partir dos 18 dias pós-parto) promove o cio e altera o padrão de liberação do LH, acelerando a entrada das porcas em novo ciclo reprodutivo. A combinação entre essa exposição e a técnica de Split weaning parece apresentar efeito sinérgico. O protocolo base de utilização de gonadotrofinas exógenas reside na aplicação de uma combinação de PMSG (gonadotrofina sérica) e hCG (gonadotrofina coriônica), 24 horas após o parto, aos 7 ou 14 dias de lactação. Esse protocolo deve, no entanto, ser avaliado com muita cautela, pois apresenta custo muito elevado e pode causar reações controversas para o consumidor de carne suína.

Assistimos uma guinada dos sistemas de produção de suínos para maior tempo de lactação, dirigida por aumento das leitegadas e minimização do intervalo desmama-cio, obras do melhoramento genético. Nesse meio, o estímulo ao cio da lactação pode surgir como alternativa para aumentar a produtividade anual da fêmea, sem que se precise aumentar seu tempo de lactação.

Várias estratégias de manejo foram elucidadas neste comentário e precisam ser discutidas para que seu ajuste seja granja-específico. Por outro lado, devemos considerar que investimentos em mão de obra e estrutura para atender fins específicos como esse são complicados, principalmente na atual conjuntura da suinocultura. Trabalho para pesquisadores e iniciativa privada, que serão responsáveis por criar e desenvolver aparatos tecnológicos que permitam a absorção dessa ferramenta pelos produtores.

Redação

Lucas Alves Rodrigues

Lucas Alves Rodrigues é Médico Veterinário (UFMG), Mestre em Zootecnia (UFMG) eAnalista de Nutrição Pleno (Suínos) Vaccinar

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